O VALE DE JABOQUE

02/08/2011 16:00

JABOQUE-PENIEL

A experiência de Jacó no Vale de Jaboque é um dos mais extraordinários relatos de quem se encontra com Deus e sofre de maneira permanente uma transformação radical. A história é de fuga, mas se transforma em encontro, num achar a si mesmo e ver Deus. É Deus quem vai ao encontro do Jacó que tem uma história de fugas, para neste encontro ser o Deus que ele, Jacó, vê.
Um fato comum a todo ser humano é que ele é um ser em fuga. Estamos sempre fugindo de alguma coisa, de fatos da vida, de realidades, de verdades, de nós mesmos e de Deus. Geralmente o ser humano pensa em encontro com Deus, quando pensa que vai morrer, quando sente a presença da morte, por alguma razão, já que ela é a travessia inegociável para a prestação de contas com Deus. É diante dela que temos a coragem de rever nossos conceitos, avaliar nossas motivações e pesar a vida. A morte é tão forte que o autor de Provérbios quando quer citar a força do amor se inspira na força da morte, ao escrever que “...o amor é tão forte como a morte...” (Ct 8:6).
Existe, no entanto, um "lugar-momento" que é único na vida quando teremos que decidir fazer a travessia que Deus nos chama, sem a presença da morte, muito embora escolher atravessar ou não, também seja uma escolha de vida ou de morte. É o momento em que Deus nos dá a oportunidade para avaliar nossas vidas, a nós mesmos, nosso caráter e Deus. Neste lugar-momento devemos ter a coragem de olhar para dentro de nós mesmos e descobrir quem somos de verdade. Este é um momento sem engano, sem mentiras e onde temos que trabalhar com nossa ganância, nosso egoísmo, nossa futilidade. É o momento em que o nosso secreto vem à luz. Este é o Momento Jaboque: momento de nos acertarmos com Deus.
O Jaboque era um afluente do rio Jordão e quer dizer “lugar de travessia”. Era um lugar abandonado, ermo. O momento Jaboque precisa ser enfrentado a sós. Mais do que um lugar Jaboque é um tempo, um tempo de luta pessoal e com Deus. É um tempo especial onde Deus trata conosco não apenas em relação ao nosso pecado, mas em relação ao nosso caráter.
Jacó já não era o moço e seu amadurecimento veio de várias maneiras, inclusive por intermédio de suas constantes fugas. Jacó sempre foi um homem com problemas e em desespero e em constante processo de conciliação. Ele precisava de tratamento no seu caráter. Como a maioria dos seres humanos, Jacó sempre negociava, tentava o apaziguamento, cedia ao perigo. Como seu próprio nome significava era alguém que se acostumara a enganar, suplantar, a negociar. Jacó era alguém que mantinha uma resistência secreta no fundo do seu coração à vida e a Deus.
Jacó havia tido uma experiência muito interessante em Padã-Arã, quando estava a procura de uma esposa entre seus parentes. Ele tem um sonho que é contado assim na Bíblia: E sonhou: e eis uma escada era posta na terra, cujo topo tocava nos céus; e eis que os anjos de Deus subiam e desciam por ela; e eis que o Senhor estava em cima dela, e disse: Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão teu pai, e o Deus de Isaque; esta terra, em que estás deitado, ta darei a ti e à tua semente; e a tua semente será como o pó da terra, e estender-se-á ao ocidente, e ao oriente, e ao norte, e ao sul, e em ti e na tua semente serão benditas todas as famílias da terra. (Gn 28:12-14). Ele fica tão impressionado com a experiência que dá o nome àquele lugar de Betel, que significa “Casa de Deus”. O que mais impressiona Jacó, no entanto, não é a presença de Deus e sim a benção prometida, pois sua experiência é apenas religiosa. Ele confunde religiosidade com espiritualidade, e, por isso trata logo de fazer uma proposta bastante interessante, para ele Jacó: E Jacó votou um voto, dizendo: Se Deus for comigo,e me guardar nesta viagem que faço, e me der pão para comer, e vestidos para vestir, e eu em paz tornar à casa de meu pai, o Senhor será o meu Deus; e esta pedra que tenho posto por coluna será casa de Deus; e de tudo quanto me deres, certamente te darei o dízimo (Gn 28:20-22).
É muito fácil perceber a familiaridade dessas palavras de Jacó. Elas ecoam em nossa consciência como uma acusação. Quantas vezes tentamos fazer um acordo com Deus nos mesmos termos: Senhor, me abençoe! Faça-me prosperar em todos os meus projetos! Dá-me muito alimento! Me vista muito bem! Cuida muito bem de mim! Aí, então, te servirei, te darei o dízimo! Dá-me para que eu possa te devolver, me abençoa, para que eu possa te abençoar!
No sonho de Jacó a cena é incrivelmente impressionante: Deus está presente, o céu aberto, anjos estão à mostra, Deus fala. Que cena maravilhosa e tremenda e tudo que Jacó vê é uma oportunidade para ser próspero, se dar bem na vida. Tudo o que fala é sobre terra, alimento, roupas, prosperidade e sucesso em tudo. Sua experiência foi puramente religiosa. Esse é um lugar comum nos nossos dias. Corações cheios de cobiça estão em Betel, interpretando o relacionamento com Deus como bênçãos materiais. Nosso vocabulário é vasto. Conhecemos os termos religiosos, muitos até clamam pelo sangue de Jesus sem nunca ter sido lavado por ele. Só vemos o que podemos tirar disso tudo. Para muitas pessoas a obra de Jesus no Calvário significa somente riqueza, prosperidade e com isto ignoram o verdadeiro significado da vitória de Cristo na cruz. Não queremos suportar as dificuldades e tudo o que for necessário para ganhar a riqueza incorruptível. Existem multidões em Betel reclamando seus direitos, reivindicando. Para muitos Betel é um lugar apenas da religião. Ignoram que na verdadeira Casa de Deus uma luta interior é travada. Há luta na alma, no coração, uma luta íntima, pois é com isso que o Senhor trata. É isto que ocorre em Jaboque.
Jaboque é transformação do caráter. Isso acontece por pelo menos três razões: Primeiro porque Jaboque é um lugar de desespero. É um lugar de vida e de morte. E um milagre precisa acontecer dentro de nós, pois é nele que vemos como somos, sem blefe, sem máscara, onde somos feridos e nossa realidade é exposta. Segundo porque Jaboque é um lugar de transformação, onde Deus nos pergunta o nome, quem somos, não porque não saiba, por desconhecer, para nos chamar atenção para nosso verdadeiro caráter. Ao perguntar o nome a Jacó, deseja fazê-lo enxergar quem ele é, enganador, suplantador. Deus estava na verdade dizendo: Jacó olhe para você mesmo, veja no que você se tornou. Não invente desculpas dessa vez. Pelo menos uma vez na vida, enfrente a realidade. Enfrente a verdade, seja honesto. Não pode haver vitória se você continuar mentindo a si mesmo. É aqui, como Jacó, que nos descobrimos irremediavelmente religiosos, que descobrimos nossa própria farsa e tentamos justificar nosso pecado. Por fim, Jaboque pode ser um ponto final, a fronteira última, onde nos encontramos com a justiça e o juízo de Deus e nos vemos completamente carentes e necessitados do amor e da misericórdia de Deus. Nunca venceremos sem isso. No Jaboque temos que enfrentar nossa própria mentira.
É no Jaboque que confessamos nosso pecado, dizendo que somos adúltero, mentirosos, enganadores, que já não acreditamos em Deus, que vivemos uma fé falsa e uma teologia descaracterizada e humanizada. Que nossos valores precisam mudar. Que não amamos a Deus, não amamos sua obra, não amamos sua igreja. Não temos apego às coisas celestiais. Somos pessoas que precisam ser transformados. No Jaboque temos a oportunidade de dizer que estamos cansados de representar ser espiritual e abençoado. No Jaboque, nosso encontro é espiritual e muda nosso caráter. Deus quer nos transformar em novas pessoas, de corações puros, de mãos limpas e não apenas nos dar coisas materiais.
Jacó precisou de uma noite de combate com sua própria natureza. Isso mudou não só seu corpo, mas sua alma. Ele acertou sua conta com o Senhor. Quando o Senhor tocou Jacó, o deixou frágil, quebrado, enfraquecido. Não existe encontro com Deus sem que saiamos feridos, expostos e marcados para sempre. Eu acredito que este é um dos maiores milagres que Deus pode fazer conosco: Destruir nossa arrogância, nossa presunção. Aleijar nossos esforços humanos e nos tornar totalmente dependentes dEle. Saímos do Jaboque mancando, humilhado e aleijado.
Sua experiência foi tão transformadora que Jacó muda o nome daquele lugar de Jaboque para Peniel, “tenho visto a Deus face a face e a minha alma foi salva”. Ele já não fala mais de acordo para bênçãos materiais, sua voz se refere a Deus e a sua bondade em Cristo. Só agora Jacó compreende seu sonho: O céu aberto significa acesso irrestrito a Deus, o Pai. Um novo caminho lhe aberto. Sentar-se nos lugares celestiais é uma benção maior do que as riquezas materiais. Significa que Deus tem algo mais excelente para nós. Podemos ter uma alegria imensurável, ouvir a voz do Senhor em meio as mais variadas e terríveis circunstâncias e abraçar os valores celestiais que nos conduzem a uma de vitória plena. Em Peniel Deus ouve o meu grito e me liberta.
Todos nós precisamos do Vau de Jaboque. Nenhum de nós escapará.